Proteína C Reativa

As reações inflamatórias são uma resposta do organismo aos diferentes tipos de agressão tecidual, como as infecções virais, bacterianas, parasitárias ou fúngicas, e às agressões físicas, químicas e imunológicas.

Diante da reação inflamatória, os monócitos secretam substâncias como IL-6, IL-1 e TNF, que levam ao hepatócito a informação da necessidade de síntese das denominadas proteínas de fase aguda. A determinação da concentração plasmática dessas proteínas ajuda, clinicamente, a avaliar a presença, a extensão e a atividade do processo inflamatório e a monitorar a evolução e a resposta terapêutica.

A proteína C reativa (PCR) é uma das proteínas plasmáticas de fase aguda. Foi identificada no soro de pacientes com pneumonia pneumocócica, em reação de precipitação do polissacarídeo C da parede do pneumococo (Gram-positivo), agente etiológico da patologia. É usada rotineiramente para monitorar a resposta de fase aguda, sendo considerada uma das mais sensíveis, por apresentar algumas características, como meia-vida curta (entre 8 a 12 horas) e valores normais muito baixos (< 0,5 mg/dL), que, em resposta a estímulos inflamatórios, podem atingir valores até 100 vezes o normal em menos de 24 horas. Além de elevar-se rapidamente após o estímulo inflamatório (4 a 6 horas), na ausência de estímulo crônico, normaliza-se em 3 a 4 dias.

A proteína C reativa deve ser utilizada como auxiliar no diagnóstico, controle terapêutico e acompanhamento de diversas patologias, uma vez que é o mais sensível e precoce indicador de processos inflamatórios resultantes de infecções, carcinomas, necrose tecidual e cirurgias. Depois de 24 horas, a velocidade de hemossedimentação (VHS) é complementar à PCR.

Durante muitos anos, a PCR foi utilizada apenas no contexto de avaliação de processos inflamatórios, mas, atualmente, vem assumindo outros papéis importantes na clínica. Por exemplo, podemos citar que, como marcador de mortalidade nos primeiros 24 meses após infarto agudo do miocárdio (IAM), foi de maior valor que as enzimas cardíacas. Além disso, altos níveis séricos de PCR puderam ser considerados fatores preditivos de ruptura cardíaca subaguda pós-IAM. Nove pacientes apresentando esse tipo de complicação foram comparados ao grupo controle de 28 pacientes infartados sem complicações. No grupo com ruptura car díaca, níveis elevados de PCR, superiores a 20 mg/dL, foram evidenciados no segundo dia pós-IAM. Um marcador tradicional de lesão muscular, a enzima CPK, não mostrou diferença significativa entre os dois grupos. A sensibilidade diagnóstica de altos níveis séricos de PCR, predizendo uma possível ruptura cardíaca pós-IAM, foi de 89%, garantindo o seu uso na prática cardiológica.

Com a recente descoberta de componentes inflamatórios na arteriosclerose, a PCR foi proposta como indicador de risco para doença coronariana e acidentes vasculares cerebrais. O risco, revelado pelos altos teores séricos de PCR, é independente de fatores ligados à dislipidemia e pode ser reduzido pelo uso de aspirina como tratamento profilático. Essas novas hipóteses de patogêneses de doenças arterioescleróticas associadas à possibilidade de terapêutica preventiva abrem novas perspectivas, que devem ser consideradas. Da mesma forma, níveis aumentados da PCR parecem estar relacionados a eventos coronarianos em pacientes com angina estável ou instável.

Em outras áreas da medicina, como a infectologia e a cirurgia, a importância da PCR também deve ser levada em conta. O uso da dosagem da PCR foi avaliado num estudo envolvendo 193 casos de endocardite infecciosa. Níveis elevados de PCR puderam ser evidenciados em casos que cursaram com complicações, levando à conclusão de que a PCR é um bom marcador prognóstico e pode ser utilizada para monitorar a resposta à terapia antimicrobiana em endocardites infecciosas.

Na recuperação cirúrgica, a PCR aumenta nas primeiras 4 a 6 horas, revelando picos séricos por volta das 48 a 72 horas de pós-operatório, em concentrações de 2,5 a 3,5 mg/dL. Em cirurgias que cursam com evolução favorável, os níveis de PCR normalizam-se por volta do sétimo dia após o procedimento cirúrgico. Na vigência de complicações, os valores da PCR permanecem elevados, e podem atingir níveis superiores a 3,5 mg/dL.

Em estados inflamatórios crônicos, as concentrações de PCR podem persistir altas indefinidamente. Em casos de LES e outras doenças do colágeno, colites ulcerativas e leucemia, as concentrações são, geralmente, normais, porém marcadamente mais altas nas infecções bacterianas do que nas virais, auxiliando no diagnóstico diferencial.
Na febre reumática, a PCR é um bom parâmetro de reagudização, pois persiste em concentrações elevadas (>4 mg/dL) quando a doença está ativa, embora decaindo a níveis normais durante a remissão.

Encontram-se níveis elevados de PCR e de haptoglobina em pacientes com espondilite anquilosante HLA-B27 clinicamente ativa; mas nem a PCR nem a haptoglobulina estão elevadas nos casos ativos com HLA-B27, em que são encontradas concentrações elevadas de IgA. Soros com altas concentrações de PCR contêm normalmente fator de necrose de tumor elevado (FNT). A relação de FNT/PCR poderia ser útil no acompanhamento de rejeição de transplantes renais. O aumento da PCR urinária em associação com baixos níveis de beta-2-macroglobulina em pacientes com transplante renal é indicativo de infecção extra-renal (sensibilidade 100%, especificidade 99%). A elevação de ambas as proteínas na urina é uma forte indicação de infecção bacteriana ou de rejeição aguda.

Aproximadamente 60% de recém-nascidos saudáveis podem apresentar, normalmente, concentrações de PCR acima de 1 mg/dL durante os primeiros 20 dias de vida. Conseqüentemente, as faixas de referência de adultos não são adequadas para crianças.

A dosagem quantitativa, pela técnica de imunonefelometria, utilizando anticorpos monoclonais anti-PCR, ao contrário dos métodos tradicionais qualitativos, permite a liberação de resultados quantitativos (mg/dL) que facilitam a interpretação clínica e o acompanhamento laboratorial de cada caso.