Hemograma

O hemograma contempla diversas provas efetuadas, com a finalidade de avaliar quantitativa e qualitativamente os componentes celulares do sangue. Os itens avaliados incluem: hemácias, hemoglobina, hematócrito, índices hematimétricos, leucócitos totais, contagem diferencial de leucócitos, plaquetas e exame microscópico de esfregaço de sangue corado.

A análise quantitativa das hemácias, leucócitos totais, plaquetas e a avaliação dos índices hematimétricos são hoje realizados por meio de equipamentos automatizados que combinam diferentes métodos de avaliação de alta tecnologia e precisão à capacidade de análise de milhões de células, permitindo resultados mais precisos.

A utilização desses equipamentos permite também a avaliação de índices hematológicos e a visualização em histogramas que demonstram a distribuição dos diferentes elementos analisados.

Essa característica possibilita a identificação de alguns parâmetros antes impossíveis de serem avaliados ou que eram analisados subjetivamente, com a visualização do esfregaço em lâmina. Entre esses parâmetros, temos o índice de anisocitose (RDW), a identificação de populações mistas de células, a anisocitose plaquetária e alertas para possíveis alterações presentes na amostra examinada. Esses alertas são específicos para alterações das séries vermelha, branca e das plaquetas, como presença de blastos, granulócitos imaturos, desvio à esquerda, atipias linfocitárias, grumos plaquetários, microcitose, hipocromia, entre outros.

Realizam ainda, por uma combinação de métodos de análise celular e coloração, a contagem diferencial de leucócitos, que serve de orientação para o citologista, chamando a atenção para situações nas quais a avaliação deve ser mais cuidadosa.

A análise qualitativa é realizada pela avaliação da lâmina corada, associada aos resultados obtidos pela avaliação eletrônica. A coloração das células diferencia em detalhes as estruturas nucleares e citoplasmáticas, permitindo a avaliação do tamanho das células, a relação núcleo/citoplasma, a forma do núcleo, a presença de nucléolos, o padrão da cromatina e a coloração do citoplasma, a presença de granulação, vacúolos e outras alterações morfológicas.

Os resultados auxiliam a identificação de doenças de origem primária ou secundária de características agudas ou crônicas. São utilizados também para acompanhar a evolução de uma varie dade de doenças e para monitorar os efeitos colaterais decorrentes do uso de medicamentos.

A avaliação eritrocitária pode identificar processos anêmicos, policitêmicos, alterações de forma e tamanho das hemácias. A avaliação leucocitária pode identificar processos inflamatórios, infecciosos, alérgicos, parasitários e leucêmicos. Pode também indicar a presença de elementos anormais e de atipias linfocitárias. A avaliação plaquetária identifica processos de trombocitopenias adquiridas ou hereditárias e trombocitoses

SÉRIE VERMELHA
A contagem de hemácias é a primeira informação fornecida e é expressa em milhões por mm3. Os níveis de hemácias iguais ou maiores que 6,20 milhões/mm3 em homens e iguais ou maiores que 5,70 milhões/mm3 em mulheres são considerados poliglobulia.

A concentração de hemoglobina é expressa em g/dL, e sua avaliação é de grande importância pelo papel no transporte de oxigênio e por estar diretamente relacionada à anemia, sendo sua melhor forma de avaliação laboratorial.

O volume relativo das hemácias dentro do volume de sangue é fornecido pela análise do hematócrito, que é expresso percentualmente.
A relação entre esses diferentes parâmetros pode ser obtida pela análise dos índices hematimétricos que irão fornecer informações adicionais sobre variações de volume e concentração da hemoglobina. Os achados morfológicos do esfregaço corado fornecem mais informações sobre conteúdo da hemoglobina, forma, tamanho e inclusões eritrocitárias.

Índices Hematimétricos
Volume Corpuscular Médio - VCM

Avalia a média do tamanho (volume) das hemácias, que podem estar em seu tamanho normal, quando são ditas normocíticas,diminuídas (microcíticas) ou aumentadas (macrocíticas). O achado de microcitose é comum em anemias por deficiência de ferro, nas doenças crônicas e nas talassemias. O aparecimento de macrocitose pode estar associado à presença de um grande número de reticulócitos, ao tabagismo e à deficiência de vitamina B12 e de ácido fólico.

ALTERAÇÃO
DE TAMANHO
ADULTOS
CRIANÇAS
ATÉ 3 ANOS
CRIANÇAS DE 4
E 14 ANOS
          
  NORMOCITOSE
  81,0   73,0   73,0
  MICROCITOSE
  <ou = 81,0   <ou= 71,0   <ou= 73,0
  MICROCITOSE DISCRETA
  80 a 80,9   71 a 72,9   73 a 74,9
  MICROCITOSE ACENTUADA
  < 60   < 60   < 60
  MACROCITOSE
  > 90   > 99   > 99
  MACROCITOSE ACENTUADA
  >120   > 120   > 120
  ANISOCITOSE
  Presença de hemácias de volumes diferentes

Hemoglobina Corpuscular Média (HCM)
Índice hematimétrico que corresponde à média de hemoglobina por eritrócito. Pode estar elevado na presença de macrocitose e diminuído na presença de hemácias microcíticas.

Concentração da Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM)
É a avaliação da hemoglobina encontrada em 100 mL de hemácias. Esse índice permite a avaliação do grau de saturação de hemoglobina no eritrócito. A saturação da hemoglobina normal indica a presença de hemácias ditas normocrômicas. Quando diminuída, teremos hemácias denominadas hipocrômicas e, quando aumentadas, hemácias hipercrômicas.

RDW (Red Cell Distribution Width)
A variação do tamanho das hemácias é analisada eletronicamente pela variação de pulsos obtidos durante a leitura. A análise dessa variação permite a obtenção desse novo índice, que representa a amplitude de distribuição dos glóbulos vermelhos, servindo como um índice de anisocitose, que se altera precocemente na deficiência de ferro, mesmo antes da alteração de outros parâmetros, como a alteração do VCM e a diminuição da hemoglobina.

Alterações da Cor (Características Tintoriais)
A coloração das hemácias reflete a concentração da hemoglobina e pode ser ocasionada:
o pela diminuição da concentração de hemoglobina e conseqüente redução da cor que leva à chamada hipocromia;
o pela presença de células com diferentes concentrações de hemoglobina chamada de anisocromia;
o pela presença de um grande número de reticulócitos que caracteristicamente têm uma cor azulada, que, junto com a cor normal, produz a chamada policromasia.

 POIQUILOCITOSE       Variação das formas das hemácias que normalmente se apresentam em uma
            
                        forma circular e com uma halo central claro.                             
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 ELIPTÓCITOS/            Hemácias elípticas e ovaladas, que ocorrem na hovolacitose hereditária
 OVALÓCIOTS         
      (eliptocitóse) e podem também ser encontradas em anemias careciaias
                                    e mais raramente nas talassemias e outras anemias.   
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 ESFERÓCITOS             Hemácia pequena de forma esférica e hipercorada que aparece a esfericitose
         
                           hereditárias e nas animias hemolíticas auto-imunes.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  DACRIÓCITOS             Hemácias em forma de lágrima. Ocorrem provavelmente por retardo da saída
         
                           da medula óssea. Presente na metaplasia mielóide, na animia megaloblástica,
                                    nas tatassemias e na esplenomegalia.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 CODÓCITOS                Células em forma de alvo. Ocorre um excesso de membrana, fazendo com
        
                            que a heoglobina se distribua em um anél periférico, com uma zona densa
                                    central. Encontradas nas talassemias, na hemoglobina C, icterícia obstrutiva
                                    e na doença hepática severa.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 DREPANÓCITOS          Hemácias em forma de foice, caracteristica da anemia falsiforme. 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 ACANTÓCITOS            Hemácias pequenas com projeções irregulares. Célula peculiar abetalipopro-
         
                           teinemia hereditária, presente também em outras dislipidemias, na cirrose
                                    hepática, na hepatite do recám-nascido, na anemia hemolítica, após
                                    esplenectomia e após administração de heparina.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 ESQUIZÓCIOTS           Fragmentos de hemácias de tamanhos diferentes e com fromas bizarras.
        
                            Observados em muitos casos de próteses valvulares e vasculares, microangio-
                                    patias, síndrome hemolítica-urêmica, nos casos de queimaduras graves e
                                    e na coagulação intravascular disseminada.

Inclusões e Outras Variações das Hemácias
As inclusões que podem ser observadas nas hemácias estão relacionadas a diferentes patologias e são conseqüência do aumento ou de defeitos da eritropoiese. Dependem, também, da capacidade do baço de retirar da circulação as hemácias malformadas. Outras alterações também podem ser observadas, como a presença de eritroblastos e a formação de rouleaux.

 ANEL DECABOT           Figura em forma de anél observada na anemias megaloblásticas, podendo,
            
                        em alguns casos, torcer-se, assuimindo um aspécto de oito (8). Pode também
                                    se observada em outras situações de heritropoiese anormal. É um filamento
                                    fino, de cor vermelho-violeta, concêntrico em relaçãoa membrana celular, que
                                    resulta de restos mitóticos de mitoses anômalas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 CORPÚSCULOS            Corpúsculo de inclusão pequeno, basófilo, restos nucleares de mitóses anô-
 DE HOWEL JOLLY        
malas. São observados em pacientes esplenectomizados, nas anemias hemo-
                                    líticas e megaloblásticas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 PONTILHADO              Granulações variáveis em número e tamanho, de cor azulada, agregados de
 BASÓFILO
                   ribissômas remanescentes. podem ser encontradas na intoxicação por metais
                                    especialmente o chumbo, nas talassemias, e em outras alterações da hemo-
                                    globina, nas mielodisplasias e em outras formas de anemia severa.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  COPOS                        Precipitados de hemoglobina desnaturada que podem ser encontrados aderidos
 DE HEINZ
                  a membrana das hemácias, em pacintes com anemia hemolíticas por algumas
                                    droga, na defuci6encia da glicose-6-fosfato hidrogenase e nas síndromes das
                                    hemoglebias instáveis. Para sua visualização, é necessário coloração especial
                                    co azul de cresil brilhantes.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 CORPÚSCULO DE         Associados a ribossomas remanescentes, apresenta-se como pontos
 PAPPENHEIMER
          enegrecidos, agrupado ou localizados em anemias hemolíticas e
                                    sideroblásticas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 ROULEAUX                  Aglutinação das hemácias que formam verdadeiras pilhas, podendo ser
                                    observadas em lâmina corada, são decorrentes da concêntração eevada de
                                    fibrinogênio ou de globulinas, especialmente nas gamopatias monoclonais.
                                    Levam ao aumento da velocidade da hemossedimentação.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 ERITOBLÁSTOS           São hemácias nucleadas que podem aparecer no sangue periférico em
         
                           decorrência de grandes regenerações eritrocitárias, ou como conseqüências
                                    de infiltração medular. Aparecem a anemia hemolítica e nas reações leucoe-
                                    ritriblásticas (fibrose e metástase medular).


SÉRIE BRANCA

A contagem global e diferencial de leucócitos e suas alterações quantitativas e qualitativas são as principais informações fornecidas na análise da série branca. Os leucócitos totais são expressos em mil/mm3. A contagem diferencial é de grande importância, podendo definir perfis patológicos, e é fornecida pela análise conjunta dos equipamentos automatizados e pela leitura do esfregaço corado, que avalia as diferentes formas leucocitárias e as expressa de forma percentualmente (relativa) e em mm3 (absoluta). A análise das alterações morfológicas dos leucócitos também é realizada por observação microscópica do esfregaço corado. Os leucócitos podem ser divididos em granulócitos (mielócito, metamielócito, bastão, neutrófilos, eosinófilos e basófilos), monócitos e linfócitos.

Alterações Morfológicas dos Leucócitos
Pelger-Hüet

É uma alteração hereditária autossômica dominante rara, que se caracteriza pelo achado de neutrófilos hipossegmentados, sem que no entanto ocorra alteração da função da célula. Os neutrófilos aparecem na periferia com discreta segmentação (bilobulados) ou mesmo sem segmentação (como bastões). Como não leva a alterações funcionais, não apresenta repercussões clínicas. Seu diagnóstico assume importância para evitar sua interpretação como um desvio à esquerda. Pode também ser encontrada nos eosinófilos. Existe, ainda, um quadro chamado de pseudo-Pelger-Hüet, no qual essa alteração pode ser adquirida, sendo causada por reações a drogas e em alguns casos de mielodisplasias e leucemias.

Alder-Reilly
É uma alteração hereditária autossômica recessiva, que se caracteriza por grânulos grosseiros de cor púrpura, os quais podem ser encontrados em granulócitos, monócitos e linfócitos.

May-Hegglin
Alteração hereditária autossômica dominante rara, na qual os neutrófilos apresentam inclusão citoplasmática azulada de RNA, semelhante aos corpos de Döhle, associada a trombocitopenia leve e à presença de plaquetas gigantes.

Chediak-Higashi
Doença autossômica recessiva rara, em que os granulócitos, monócitos e linfócitos se apresentam com grânulos gigantes, associada a infecções piogênicas freqüentes e anormalidade funcional dos leucócitos, geralmente com sobrevida curta.

Alterações Adquiridas
Entre as alterações adquiridas, pode ser destacada a presença de corpúsculos de Döhle, inclusões ovais azuladas encontradas na periferia do citoplasma. Geralmente, acham-se isolados e são conseqüência de ribossomas que persistiram e costumam ser encontrados em infecções e grandes traumas. O achado de granulações grosseiras (tóxicas) no citoplasma dos neutrófilos pode acontecer em longos processos infecciosos. As vacuolizações citoplasmáti-cas acontecem como resultado da depleção dos grânulos azurófilos no processo de fagocitose.

Plaquetas
A avaliação das plaquetas pode ser feita de forma quantitativa, expressa em mm3, e de modo qualitativo, pela avaliação das características analisadas no esfregaço corado, o que permite a identificação de alterações morfológicas das plaquetas.

A utilização de equipamentos automatizados, além de fornecer contagens mais precisas, permite que se obtenham informações em relação à presença de anisocitose e grumos plaquetários, e também de índices plaquetários, que em sua maioria ainda não estão liberados para uso clínico. Entre eles, os que começam a ser utilizados são o MPV (Mean Platelet Volume), considerado um índice de anisocitose plaquetária, e o PDW (Platelet Distribution Width). Entretanto, ainda faltam maiores dados de correlação clínica.

As alterações quantitativas podem ser tanto o aumento da quantidade de plaquetas, chamada hiperplaquetemia, quanto a diminuição, denominada plaquetopenia.

Consultar Plaquetas.